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Coluna

Uma abordagem sobre ética nos negócios na pós-modernidade

A sobrevivência das empresas num mercado hiperconectado depende da Ética mais do que nunca

11 novembro 2021 - 12h14

Uma abordagem sobre ética nos negócios na pós-modernidade

“Somente a moralidade das nossas ações pode nos dar a beleza e a dignidade de viver.”

Albert Einstein

 

Ética, uma palavra muito usada atualmente, é pouco compreendida e, por este motivo, pouco praticada. Vivemos uma crise ética como nunca visto. A sociedade e suas instituições padecem diariamente o impacto desta crise.

A origem da palavra ética vem do grego “ethos” e significa estilo e vida, costumes, práticas ou, podemos dize, até mesmo um código de conduta que baliza o comportamento de uma pessoa em uma sociedade.

O que, então, estuda a ética? De acordo com Robert Henry Srour, cientista social e doutor em sociologia pela USP (2003, p.15).

Os fenômenos morais e, mais especificamente, as morais históricas, os códigos de normas que regulam as relações e as condutas dos agentes sociais, os discursos normativos que identificam, em cada coletividade, o que é certo ou errado fazer.

Em especial, os pensamentos sobre ética nos negócios e em particular nas corporações, nos leva para uma nova direção, Robert Salomon, professor das áreas de negócios e filosofia do Quincy Lee Centennial, da Universidade do Texas, aponta-nos um caminho ainda não percorrido pelos acadêmicos que permaneceram preocupados com reivindicações conflitantes dos negócios e da sociedade.

             Neste novo caminho é permitido observar com clareza a realidade da vida corporativa, presente nas corporações de mais destaque no mundo: amizade, honra, lealdade, confiança e justiça. Em contrapartida o ressentimento e a inveja são também forças de grande amplitude impostas para enfrentamento a todo executivo (SOLOMON, 2006).

               Wayne Grudem, em sua obra Negócios para a glória de Deus, faz a seguinte indagação: “Negócios são essencialmente bons ou maus?”

Para Grudem, palavras como lucro, competição, dinheiro e negócios, são, muitas vezes, moralmente más; e até pessoas que trabalham no mundo dos negócios as fazem com um certo sentimento de culpa: poucas são as pessoas que têm a concepção de que tais palavras ou atividades são, de fato, boas.

Diante de suas considerações é possível afirmar que tais atividades humanas muitas vezes se relacionam, desde pequenas transações, pequenos patrões, ou comerciantes injustos, assim como também empregados desonestos e constantes escândalos envolvendo grandes empresas privadas e até mesmo estatais... a Política, ou os governantes envolvidos com corrupção por meio de desvios de verbas públicas. Tudo isso reforça tais concepções por muitos defendidas que estas atividades são possuídas por uma nuvem escura de suspeita. Estas concepções estão corretas? (GRUDEM, 2006).

Atualmente, o tema Ética Nos Negócios é ministrado em quase todas as escolas de administração de empresas dos Estados Unidos e debatido quase que diariamente em publicações do Wall Street Journal, Business Week e The Economist. Este tema ganhou espaço e, em apenas dez anos, vem sendo tratado por algumas empresas com solenidade e reverência, ato este que as diferenciam das demais corporações como se fosse uma mágica.

De acadêmicos a executivos, esses interessados lotam salas de aula para saber por que tal campo desperta tanto interesse. Mas o que se pode esperar de um curso voltado à ética dos negócios ainda continua difícil de responder. Esta ética não é uma área da filosofia, ou um fórum de debate sobre política pública, e nem uma subdivisão das ciências sociais, mas uma espécie de entendimento, como que também uma pratica em que zelamos por certo valor de caráter, que nos ajudará a nos adequar a certas organizações e sociedades.

Será muito difícil o mundo corporativo negar que os seus principais problemas envolvem negócios e, mesmo não sendo abordados como éticos, eles são profundamente éticos e filosóficos, ou seja, são problemas das pessoas. Nesta esteira, comentou Irving Kristol (1920-2009), escritor e jornalista americano, considerado o fundador do neoconservadorismo (SOLOMON, 2006, p.13-35): “Mais uma vez, os negócios modernos estão pagando o preço por se conceberem como a representação de uma espécie abstrata de “homem econômico”, e não de homens e mulheres envolvidos numa atividade plenamente humana”.

Por isso, a demasia do entusiasmo nos negócios estreita a perspectiva dos envolvidos favorecendo a exposição do que havia de pior em cada um, teria sido o que favoreceu a demonstração da constante presença do perigo, antecipado por Adam Smith e também previsto como uma ameaça por Karl Marx. Já em 1980, foi exibido um grau de cobiça financeira tão acentuada que noções como virtudes e integridade, foram ignoradas e a impiedade e a cobiça foram elevadas como status de ideais.

Seguindo esta tendência no mundo dos negócios, chegou-se a criar uma metáfora da guerra, comum em muitas salas de conselhos corporativas onde muitas vezes afirma-se que o organograma hierárquico das corporações se assemelham a cadeias militares de comando. Nos Estados Unidos, nas reuniões administrativas, os empregados são denominados soldados e os concorrentes de inimigos, onde planos de ação são chamados planos de ataque.

Todavia, negócios não são guerra, mesmo quando a sobrevivência da empresa está em jogo; e não deveria ser comparada com o poder destrutivo de uma guerra, pois o objetivo da competitividade é proporcionar os melhores preços e serviços para a sociedade e para o consumidor, e não de dizimar os concorrentes (SOLOMON, 2006,p.71):

A raiz da confusão é a crença errônea de que a motivação de uma pessoa, a chamada motivação do lucro do homem de negócios, é uma explicação de seu comportamento ou seu guia para a ação correta. É duvidoso ao extremo que essa motivação do lucro exista; isso é uma das principais causas da compreensão equivocada da natureza do lucro em nossa sociedade e da hostilidade entranhada ao lucro: parece que estão entre as doenças mais perigosas da sociedade industrial (...)E é em grande parte responsável pela crença dominante de que há uma contradição intrínseca entre o lucro e a capacidade de uma companhia de fazer uma contribuição social. (Peter Drucker.)

Esta generalização, do ponto de vista de Srour, é de certa forma exagerada, por haver suposição de que a venalidade seja um traço congênito dos homens. Mas se muitos faltam com o dever, isso não se pode dizer de todos (SROUR, 2003, p.9).

Em uma sociedade em que nem todos os agentes sociais ficam vulneráveis a situações de risco que possam leva-los a alguma situação propícia a atitudes ilícitas e imorais, mas existem os que atuam na economia monetária... e estes são mais vulneráveis quando colocados à prova.

Contudo, por outro lado, existe uma presunção de que é da própria natureza humana o fato de existir pessoas honradas e outras não honradas com certo desvio de moral; se isso de fato for real, ficaria muito difícil para as empresas distinguir em meio a tantas pessoas que se candidatam aos diversos cargos empresariais, quais são os de melhor índole. Todavia o professor Srour diz ser outra crendice, devido a que muitas pessoas de bem, quando acuadas por certas situações e circunstâncias, ou mesmo deslumbradas pelo poder, enveredam pelo cominho da transgressão e do desvio de moral. Para ele, professor Srour (2003, p.9-11), isso é chamado de síndrome de Davi:

A história bíblica do unificador das doze tribos de Israel retrata um primeiro deslize e, logo a seguir, uma escalada de encobrimentos. De fato, o rei Davi avista Betsabéia tomando banho. Encantado, pede a sua criadagem que lhe traga a mulher. Os dois se deitam e Betsabéia engravida. Como o soldado Urias, marido de Betsabéia, está ausente, o pai só pode ser Davi. Na época, a punição de mulher adúltera era a morte por apedrejamento. Para acobertar suas ações, Davi ordena ao general Joab que Urias retorne da guerra. Feito isso, o rei procura persuadir o soldado a passar alguns dias em casa e dormir com a própria esposa. Mas Urias recusa-se a quebrar o rito da abstinência dos que lutam em guerra santa. Davi manda, então, reintegrá-lo às tropas e instrui Joab para que o soldado fique em uma frente em que possa ser ferido e morto. Ao tomar ciência da morte de Urias. Davi simula pesar. Depois de breve luto, a viúva se casa com o rei. No fim, Deus faz sofrer Davi por suas ações, ceifando a vinda de seu primeiro filho com Betsabéia.

Muitos, diante de diversos pesares e circunstâncias da vida, pessoas de reputação... podem desviarem-se e serem conduzidas a realizar certos desatinos: e será que, por isso, seriam pessoas sem virtudes por natureza?

Outro paralelo contemporâneo relacionado a abuso de poder é o polêmico caso de Watergate que envolveu diversas figuras políticas ligadas à presidência dos Estados Unidos. Na ocasião, o ex-presidente Richard Nixon autorizou um programa de inteligência política que acobertou ações pouco triviais e ortodoxas de seus assessores no período em que ocorreu a campanha eleitoral para renovação de seu mandato; precisamente em 18 de junho de 1972, o jornal Washington Post trazia em sua primeira página o assalto do dia anterior à sede do Comitê Nacional Democrata, no Complexo Watergate, na capital dos EUA. Durante a campanha eleitoral, cinco pessoas foram detidas quando tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no escritório do Partido Democrata.

Em razão disso, Richard Nixon não ficou impune ás implicações legais do processo que foi instaurado para desvendar o caso e que levou a sua renúncia em 1974. Contudo, mais tarde, em sua velhice, após sua absolvição dos atos praticados, foi ele convidado diversas vezes para se pronunciar sobre os mais variados assuntos. Assim poderíamos afirmar que para sempre, Nixon não prestava?

Frente a isso tudo, como as empresas poderiam resguardar-se contra os desvios de condutas que possam vir cometer seus funcionários? Visto que desde há muito tempo é observado que a implantação de exigências morais nem sempre são eficazes na eliminação dos interesses materiais, ou das ambições políticas, não importando onde ela ocorra: seja na esfera pessoal, corporativa ou coletiva, deixando sempre no final as empresas reféns das diversas consciências individuais dos seus funcionários.

Todavia, em um cenário mundial globalizado, no qual a competição, na maioria das vezes, pode desembocar em uma concorrência desleal, termos como Virtude e Ética Nos Negócios soam como se estivessem fora de contexto ou mesmo antiquada. Adotar posturas éticas responsáveis, não apenas como uma reflexão, mas como padrão chave de gestão empresarial, presidindo até mesmo o pensamento e a ação do empresário e gestor, é algo muito importante para a sobrevivência das empresas o que, sem margem de dúvida, pode no futuro ser um diferencial vantajoso...