AO VIVO
Menu
Busca sábado, 22 de janeiro de 2022
Busca
São Paulo
32ºmax
19ºmin
Coluna

Santo Hilário de Poitiers: campeão da ortodoxia no Ocidente e no Oriente

Foi tanto o prejuízo que Santo Hilário causou aos arianos no Oriente, que estes convenceram o Imperador a mandá-lo de volta à sua diocese, onde criam que ele lhes seria menos prejudicial.

13 janeiro 2022 - 14h39

Santo Hilário de Poitiers: campeão da ortodoxia no Ocidente e no Oriente

 

Esse insigne Doutor da Igreja, cognominado trombeta contra os arianos por São Jerônimo, também qualificado como martelo dos hereges e Atanásio do Ocidente, recebeu de Santo Agostinho significativo elogio: “valorosíssimo defensor da fé contra os hereges e digno de toda a veneração”

 

Reprodução do artigo de Plinio Maria Solimeo, publicado originalmente no site http://catolicismo.com.br

13 de Janeiro, dia do grande santo Hilário de Poitiers

A vida de Santo Hilário nos revela como é possível ao homem, pela simples reta razão, chegar a uma apreensão da verdade no plano meramente natural; e, a partir daí, com o auxílio da graça, atingir o conhecimento de verdades sobrenaturais.

Hilário era oriundo de uma das mais distintas famílias da Província da Aquitânia, tendo nascido em Poitiers (França) no início do IV século. Sendo pagãos, seus pais o educaram na ciência da antiga Grécia e Roma e em todas as práticas da gentilidade. Mas ao jovem Hilário, dotado de juízo sólido e de inteligência robusta e penetrante,  não satisfaziam as superstições ridículas do paganismo. Assim descreve ele o que se passou em sua alma:

“A vida presente não sendo senão uma seqüência de misérias, pareceu-me que a havíamos recebido para exercer a paciência, a moderação, a doçura; e que Deus, todo bondade, não nos havia dado a vida para nos tornar mais miseráveis no-la tirando. Minha alma se dirigia assim com ardor a conhecer esse Deus, autor de todo bem, porque eu via claramente o absurdo de tudo o que os pagãos ensinam quanto à divindade, dividindo-a em muitas pessoas de um e de outro sexo, atribuindo-a a animais, a estátuas e a outros objetos insensíveis. Reconheci que não podia haver senão um só Deus, eterno, todo-poderoso, imutável”. 1

Na procura da verdade, caíram-lhe nas mãos as Sagradas Escrituras, que ele devorou com sofreguidão. A leitura do Evangelho de São João, em que este explica que o Verbo era Deus e estava em Deus, e que se fez carne e habitou entre nós, acabou por tirar-lhe qualquer dúvida a respeito da verdade. Pediu então o batismo e começou uma carreira de gigante. A filosofia pagã serviu-lhe de base para adentrar-se no estudo, quer da filosofia, quer da teologia dogmática e da sã doutrina da Igreja.

Casado com uma mulher de raro mérito, que compartilhava com ele todos seus anseios e esperanças, tiveram uma filha, Abrè. Seguindo os exemplos domésticos, esta cresceu na piedade e virtude.

 

Combate contra o maior flagelo da época: o arianismo

Vagando a Sé de Poitiers, os sacerdotes e os fiéis escolheram para seu Pastor, como era costume da época, Santo Hilário, que já dava exemplos da mais lídima virtude. De comum acordo, separou-se temporariamente então da mulher e filha para servir só a Deus, e foi ordenado sacerdote e sagrado Bispo.

Para Hilário, ser Bispo não era somente uma dignidade, mas sobretudo um contínuo sacrifício. Pois, dizia: o Bispo deve ser “um príncipe perfeito da Igreja, que deve possuir na perfeição as mais eminentes virtudes. Num bispo, a inocência de vida não é suficiente sem a ciência; e, sem a santidade, a maior ciência não basta; com efeito, como ele é instituído para a utilidade dos outros, de que lhe servirá esta, se ele não instrui? E não serão estéreis suas instruções, se não são conformes à sua vida?” 2

Naquela época tão conturbada, para ele um dos principais deveres era manter íntegro o depósito da fé e defender sua pureza contra a corrupção das heresias. Pois estava causando grandes devastações no rebanho de Jesus Cristo a pior heresia que atingiu a Igreja nos primeiros séculos: o arianismo. Negava este o dogma da Santíssima Trindade, dizendo que só Deus Pai era Deus.

O pior é que tal heresia conquistara o Imperador Constâncio, filho de Constantino, encontrando nesse homem fraco, mas despótico, seu maior apoio. Com isso, infectara praticamente todo o Oriente e procurava depois lançar seus tentáculos sobre o Ocidente.

Dois concílios convocados por dois Bispos adeptos da heresia — Saturnino de Arles, Metropolita das Gálias, e Maxêncio de Milão — voltaram a condenar  Santo Atanásio, Bispo de Alexandria e o maior baluarte, no Oriente, da ortodoxia contra a infecta heresia. Além da condenação, tais concílios o baniram de sua diocese.

Santo Hilário não participou desses concílios e dedicou-se a organizar a resistência dos Bispos católicos do Ocidente, que mostraram muito mais coragem nessa luta do que os do Oriente. Proclamaram a inocência de Atanásio e excomungaram os bispos arianos e semi-arianos. Enviaram também uma delegação ao Imperador, pedindo que os Bispos exilados por causa da fé fossem reenviados às suas dioceses, e que, a partir de então, a autoridade secular não mais interviesse em matéria puramente espiritual.

Assim pressionado, Constâncio autorizou Atanásio a retornar à sua diocese. Mas os líderes arianos voltaram à carga, convencendo o Imperador de que o valoroso Bispo de Poitiers, defendendo a verdadeira Igreja, atacava o Império. Constâncio convocou então um novo concílio em Béziers, no qual, além de reconfirmar o exílio de Santo Atanásio, os Prelados arianos depuseram também Santo Hilário e obtiveram do Imperador que ele fosse exilado juntamente com São Ródano, para a Frígia, na Ásia Menor.

 

Como exilado, lidera a luta no centro da heresia

O tiro saiu pela culatra, pois com esse exílio o maior inimigo do arianismo no Ocidente foi enviado para combatê-lo em seu próprio meio, o Oriente. Santo Hilário, sem deixar de manter correspondência com os Bispos fiéis da Gália, dirigia também por meio de cartas sua diocese, ao mesmo tempo que escrevia obras refutando a heresia ariana e contra ela trabalhava.

Sobre a expansão do arianismo na época de Santo Hilário de Poitiers, comenta um conhecido hagiógrafo:

“Protegido com todo o poder do Imperador, o arianismo de tal maneira havia desolado a vinha do Senhor, que assegura nosso Santo ter encontrado somente três Bispos que não eram total e abertamente arianos; os demais viviam tão lastimosamente desencaminhados, que Deus apenas era conhecido pelos Prelados das 10 províncias da Ásia, como ele mesmo explica e se lamenta”. 3

“Que meu exílio dure sempre — dizia Santo Hilário — contanto que a verdade seja enfim pregada. Os inimigos da verdade podem bem exilar seus defensores, mas ela, a verdade, crêem eles exilá-la ao mesmo tempo? Exilando meu corpo, puderam eles também encadear e deter a palavra de Deus?”. 4

Em Constantinopla, Hilário escreveu ao Imperador:

“Passou o tempo de estar calado; os mercenários fugiram e o Pastor tem de levantar a voz. Toda a gente sabe que, desde que estou proscrito, nunca deixei de confessar a fé, mas sem recusar nenhum meio aceitável e honroso de restabelecer a paz... Agora combatemos contra um perseguidor disfarçado, contra um inimigo que afaga, contra o anticristo Constâncio. Não nos condena a fim de nos fazer nascer para a vida, mas enriquece-nos para nos levar à morte. Não nos encarcera numa prisão para nos tornar livres, mas honra-nos em seu palácio para escravizar-nos. Não nos corta a cabeça com a espada, mas mata a nossa alma com o ouro. Não nos ameaça com a fogueira, mas acende secretamente o fogo do Inferno. Reprime a heresia para não haver cristãos; honra os sacerdotes para não haver Bispos; edifica igrejas para demolir a fé... Mas eu declaro-te, ó Constâncio, o que teria dito a Nero, a Décio e a Maximiano: combates contra Deus; levantas-te contra a sua Igreja; persegues os Santos; és tirano, não das coisas humanas, mas divinas”. 5

Enfim, foi tanto o prejuízo que Santo Hilário causou aos arianos no Oriente, que estes convenceram o Imperador a mandá-lo de volta à sua diocese, onde criam que ele lhes seria menos prejudicial.

 

Volta triunfal: prossegue o zelo anti-ariano

O famoso São Martinho de Tours foi discípulo de Sant Hilário de Poitiers.

São Martinho de Tours, que já era seu discípulo, foi encontrar-se com Santo Hilário em Roma para acompanhá-lo em sua volta. A alegria de todos os católicos na Gália foi enorme. Escreve São Jerônimo: “Foi então que a França abraçou seu grande Hilário, voltando vitorioso da derrota dos hereges”. 6

 

Deus fez brilhar ainda mais a glória de seu servo por inúmeros milagres. Um deles refere-se ao verdadeiro amor paterno. Olhando sua filha adolescente, pura e desapegada das coisas da terra, pediu a Deus que, se ela houvesse um dia de manchar sua túnica batismal, Ele a levasse antes para Si. O pedido foi aceito quase imediatamente. Abrè faleceu docemente nos braços do pai, e é hoje invocada como santa em Poitiers.

Depois de ter restabelecido o catolicismo nas Gálias, Santo Hilário passou à Itália para a livrar desse flagelo do arianismo. Foi auxiliado nessa tarefa por Santo Eusébio de Verceil e Filastro de Brescia.

Combatendo os erros do Bispo Maxêncio em sua própria cidade episcopal — Milão — este obteve do Imperador Valentiniano que o expulsasse de lá.

Voltando a Poitiers, entregou-se de corpo e alma à instrução de seus diocesanos. Recebeu de braços abertos São Bento, Bispo da Samaria, e 40 discípulos seus, expulsos da Palestina pelos arianos, fundando estes a abadia de São Bento de Quincey.

Enfim, cheio de obras e de anos, entregou Hilário sua alma ao Criador no ano de 367. Foi o grande Pio IX — recentemente beatificado — que o declarou Doutor da Igreja.                                                  

Notas:

1. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, Bloud et Barral – Libraires Éditeurs, Paris, 1882, t. I, p. 292.

2. Id., Ib., p. 296.

3. Pe. Jean Croisset, Año Cristiano, tradução castelhana do francês pelo Pe. José Francisco de Isla, Madrid, Saturnino Calleja, 1901, t. I, p. 138.

4. Lib. De Synod., n. 78, apud Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 300.

5. Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1993, tomo I, p. 62.

6. Apud Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 304.